THE STRANGE BOYS
Sempre estive do lado da arte em que o artista é igual à música que faz (ou então a música ainda é melhor que o artista, mas cresce totalmente a partir dele). Vive dessa maneira, pensa dessa maneira, sente dessa maneira, logo aí tem que fazer música que bata certo com tudo. Todos os outros parecem ter alguma coisa de profundamente errado acerca deles.
No rock de formato mais clássico, como o que os Strange Boys praticam, perdeu-se muito muito tempo em teatros, afectações, tiques e parafernália, mas de uma forma que sempre pareceu uma festa temática levada mesmo longe demais.
Ryan Sambol e o seu bando de Strange Boys (agora com Jenna deWitt, ex-Mika Miko, fica & Girl) lançou este ano ‘Be Brave’, o sucessor de uma estreia que deixou muita menina bonita apaixonada e muito gajo reinvogorado com a pujança da sobreposição orgânica e milagrosa entre brio, selvajaria e delicadeza aqui dos rapazes. Lançado em conjunto por duas casas míticas, a In The Red e a Rough Trade, ‘Be Brave’ foi surpresa para muitos que esperavam uma 2ª parte dos rockeiros incessantes da estreia e apanharam com algo muito mais inteligente, potente e carismático que isso. Uma colecção de alguns números mais agitados, mas principalmente baladas existencialistas, como só o rock as sabe fazer tratando-as como se fossem a poesia mais solta. O disco é glorioso.
Montes de vezes quando estou a falar com o Ryan lembro-me da Patti Smith, e de a ver em vídeos e de a ler em revistas a falar sobre Rimbaud; penso sempre que ele também deve gostar dessa imagem. Talvez ela também tenha pensado que gostava de algo semelhante, a imaginar Bob Dylan na cama da morte de Woody Guthrie, sozinho e esquecido, como uma abstracção perfeita de desgraça e irmandade na hora em que as palmas estão longe. Talvez o Guthrie um dia tenha visto um bandido que cantava como ninguém, e quem sabe não foi por isso que assinou que a sua guitarra matava fascistas.
A inspirarmo-nos para a singularidade a partir de como os outros queriam ser tão reais como os mais reais, podemos assim criar uma nova, mais livre e liberta realidade, porque a queremos tornar igual aos nossos mitos imaginários mais poderosos.
O Ryan é dos poucos que há assim no rock; não via tanta frescura na forma, para ser sincero, desde o Cobain (aliás, o antigo manager do Cobain já o convidou para fazer dele uma estrela ao nível dele, ao que o Ryan respondeu com o dedo favorito do Johnny Cash). Adora realmente música, e procurou pelos mais crus e verdadeiros toda a vida. Agora tem alguns deles na sua banda, que é das grandes de hoje.
Muito difícil, entre as guitarras com o ganho todo puxado e as válvulas prontas para estrelar ovos, a voz, caras e carisma deles, encontrar banda de rock hoje em dia, de putos selvagens e com os cérebros realmente activos, a fazer rock ‘n roll tão puro, vibrante e de agora. Pós-blues, pós-Patti, pós-Dylan, pós-freakbeat, pós-garage, pós-soul. Só gente, viva, a querer rebentar os átomos de cada momento. O que o melhor rock sempre foi. Perder cada visita deles a Lisboa devia equivaler automaticamente a ir de cana. Depois não fiquem a pensar que poderia ter sido uma Verão mais bravo.

Myspace www.myspace.com/thestrangeboys
Editora roughtraderecords.com
Entrevista www.spinner.com
Vídeo para ‘Be Brave’ www.youtube.com

Local: MusicBox
Data: 14 de Julho
Horário: 22h30
Entrada: 8€

RODRIGO AMADO MOTION TRIO
Presença constante, activa e dinamizadora no panorama de jazz nacional há mais de 20 anos, Rodrigo Amado é hoje um dos mais pertinentes improvisadores no panorama jazzístico europeu. Em anos recentes tem estado imparável com edições, datas e novos trabalhos, sendo que um dos focos tem sido este excelente Motion Trio com Miguel Mira (violoncelo) e Gabriel Ferrandini (bateria). A secção rítmica brilha, em criatividade e abertura estrutural, com uma métrica seguríssima e livre, mas sempre plena de substância e pertinência. Arquitectura idílica para o saxofone de Amado, que nesta formação prima por fogo, lucidez e placidez. Das formações mais auspiciosas do jazz português.

Myspace www.myspace.com/rodrigoamado
Site oficial www.rodrigoamado.com/
Entrevista Jazz.pt www.rodrigoamado.com/InterviewJazzPt.html

Local: Museu do Chiado - Jardim de Esculturas
Data: 15 de Julho
Horário: 19h30
Entrada: GRATUITA

OMAR SOULEYMAN
Regresso a Portugal, após a pan-omni-trans-festa do ano passado no Anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian, da lenda musical da Síria por direito próprio. Com um impressionante registo de mais de 500 cassettes com material ao vivo e de estúdio lançadas, a música de Omar, e do seu círculo de músicos que o têm vindo a acompanhar desde o início em 1994, é uma música de festa, acima de tudo. O seu colaborador criativo mais perene e influente é o poeta Mahmoud Harbi, com quem frequentemente canta a Ataba em casamentos e ajuntamentos celebratórios, que é uma forma tradicional de poesia usada na Dabke (a dança festiva árabe mais popular na região do Médio Oriente). Normalmente encontra-se em palco atrás de Omar a fumar cigarro atrás de cigarro e murmura a poesia no seu ouvido que está a escrever no momento. Não é um ghost writer personalizado, é um man to man poeta + emcee em directo, dinâmico, gerado e alimentado pelo clima de excitação do concerto/arraial.
Omar confessou à Red Bull Music Academy Radio como a tecnologia o distinguiu dos colegas músicos sírios, e percebe-se pela amálgama geo-estilística que a sua música conjura que é uma expressão prenha de tradição – ao serviço de etapas e rituais da vida comunal em que se inscreve – mas também cantando a intimidade ou a distância do Amor assente em bpm vertiginosos e solos de teclado hiper-reais, hummus prog espremido concisamente em canções que não abrem ou fecham uma pista, antes criam uma pista para elas.
A actual tournée europeia vem promover o novo e terceiro disco para o mundo ocidental via Sublime Frequencies, intitulado ‘Jazeera Nights’, uma retrospectiva que inclui gravações ao
vivo registadas e editadas em cassette entre 1995 e 2009. Mais um capítulo no espreitanço privilegiado e sem filtros de como é viver o quotidiano sírio com o sócio que, desde 1996 com o seu êxito ‘Jani’, vê o seu som ‘Shabi’ passar de mão em mão, de corpo para corpo, pela terras da região.

Editora www.sublimefrequencies.com
Entrevista na The Quietus htthequietus.com
Perfil no The Guardian www.guardian.co.uk
Perfil no El Mundo www.elmundo.es
Vídeo para ‘Leh Jani’ www.youtube.com

Local: Lux Frágil
Data: 15 de Julho
Horário: 22h30
Entrada: 10€

HYPE WILLIAMS
Estreia nacional para um trio que se divide entre Londres e Nova Iorque, e cujo crescimento temos vindo a assistir com fascínio e reverência. Os instrumentais, pormenores da inclinação estética, algumas métricas e desarmonias lembram minimamente uns Excepter mais doces (se ‘KA’ não fosse tão apocalíptico), mas tudo o resto é navegação pioneira. A batida é universal-world contemporânea, os graves descendentes da globalização do tuning, o groove progressão auspiciosa para o amanhã, as melodias (voz e electrónica) arquitectadas por olhos a brilhar para o desconhecido. Tanta originalidade no mesmo sítio é sempre sinal de grandeza. Oportunidade preciosa para a testemunhar no seu arranque. 2/5 da Filho Único estão nos pratos antes e depois do concerto, até às 4 da manhã.

Myspace www.myspace.com/hypheewilliams
3 canções www.pinglewood.com/2009/March/321_Hype_Williams.html
Jawbrrr mixtape na VICE UK vice.typepad.com
Hounds of Hate Mixtape www.pinglewood.com
Editora www.destijlrecs.com/hype.html
Vídeo ‘Rescue Dawn’ www.youtube.com
Vídeo ‘Untitled’ feat. Yung Goatmen www.youtube.com

Local: Lounge
Data: 21 de Julho
Horário: 22h30
Entrada: LIVRE

TIGRALA
Trio que acaba de editar o seu primeiro e homónimo album pela Mbari, onde a guitarra revolucionária de Norberto Lobo (aqui principalmente concentrado em tambura), o novo estado acústico do Guilherme Canhão (depois dos cometas feéricos dos Lobster), e o delírio vibrafonista de Ian Carlo Mendoza (que anda também a explorar percussões latinas várias, e todos os outros objectos - todos são possibilidades - onde a música existe), numa unificação muito rara.
Estão por aqui traços dos Tortoise de 'TNT' e de um Steve Reich de arraial metafísico, um teluricismo lusitano que compreende e transcende as coordenadas que Giacometti e associados nos deixaram. Um continuar das tradições tribais como aglutinadas por Don Cherry (e aqui redireccionadas para linguagem própria pelos Tigrala), mas acima de tudo, como em qualquer outra circunstância que envolva qualquer um destes músicos, o cerne vital desta coisa que aqui temos perante nós está noutro sítio, mais acima destas histórias de escrever. Está no maior dos amores pela música, no milhão de feixes de luz do encaixe milagroso que só existe nas circunstâncias mais empáticas de som e partilha - a alegria pura destes três homens que há pouco deixaram de ser miúdos, em desbravar estradas de melodia, ritmo e todos os transes, milagres e asceses que daí advém.
O nosso 'Art Ensemble de Mirandela' como nos disse um amigo há tempos, numa - aqui é mesmo - celebração para nos deixar com danças novas para todos os dias que daqui em diante nos surgirem pela frente.
Este será o concerto oficial de apresentação em Lisboa de ‘Tigrala’.

Myspace www.myspace.com/tigrala
Editora mbarimusica.blogspot.com
Vídeo ao vivo www.youtube.com

Local: Museu do Chiado - Jardim de Esculturas
Data: 22 de Julho
Horário: 19h30
Entrada: GRATUITA

ZUL ZELUB – JORGE LIMA BARRETO & JONAS RUNA
Figura incontornável da música portuguesa nas últimas décadas, Jorge Lima Barreto é musicólogo, ensaísta, co-fundador da Anar Band (com Rui Reininho) e dos Telectu (com Vítor Rua). Prossegue trilhando um caminho extremamente idiossincrático, que reúne conhecimento proveniente das mais variadas áreas de criação musical e artística, da composição moderna e contemporânea, ao jazz, ao minimalismo ou ao rock. Nesta actuação irá apresentar-se em piano eléctrico na companhia de Jonas Ruma, em ‘computer music & kima x’, constituindo assim o projecto Zul Zelub que partilham desde 2007.

Crítica a ‘Zul Zelub’, disco a solo de 2008 na Clean Feed www.jazzloft.com
Bio na ‘Campo das Letras’ www.campo-letras.pt/autores/jorge_l_barreto.html
Curriculum na Meloteca www.meloteca.com/catalogo-lima-barreto.htm

Local: Museu do Chiado - Jardim de Esculturas
Data: 29 de Julho
Horário: 19h30
Entrada: GRATUITA

CIAN NUGENT
Músico irlandês extremamente promissor e com um trabalho já radiante, Cian Nugent é um herdeiro directo da escola norte-americana de fingerpicking em guitarra acústica, entretanto universalizada, que liga John Fahey, a Leo Kottke, a Jack Rose – com todas as suas orientalizações, africanizações e metaformoses culturais. Cian trabalha principalmente em formas longas, em lentos, intricados e hipnóticos arcos mântricos, revelando melodias descarnadas do centro do turbilhão harmónico e rítmico que vai desenhando. Está neste momento próximo de terminar o seu próximo álbum, que tudo leva a crer deverá ter edição ainda em 2010.

Myspace www.myspace.com/ciannugent
Vídeo ao vivo em Dublin www.youtube.com/watch?v=gBknvK1G2wQ
Vídeo ao vivo em Limerick www.youtube.com

Local: Museu do Chiado - Jardim de Esculturas
Data: 5 de Agosto
Horário: 19h30
Entrada: GRATUITA

JP SIMÕES
Nascido em Coimbra, em 1970, ‘JêPê’ passou parte da infância e adolescência no Brasil, diáspora que o formou autoralmente numa dieta de João Gilberto, Caetano Veloso e Chico Buarque. Em meados da década de 90 ingressa nos Pop dell’Arte, ajudando a concretizar o disco ‘Sex Symbol’ com o seu trabalho de guitarra. Volta a Coimbra pouco depois para congeminar a banda que mudaria o cenário pop rock nacional dos finais de 90, os extintos Belle Chase Hotel. Ao longo de dois álbuns, e cerca de 7 anos de estrada, excitam mentes pensantes nas multidões anónimas de Queimas e Festivais de Verão, deixando-as viciadas para de então para a frente segui-lo com atenção e carinho no seu percurso individual de maturação criativa e emocional de um artista total. Seguiu-se a aventura do Quinteto Tati, com um ‘Exílio’ celebrado pela crítica pela sua amplitude de ritmos e latitudes de salão e, finalmente, a carreira a solo, com início discográfico em ‘1970’, de 2007, que chega a atingir o 12º lugar do top de 30 discos mais vendidos de Portugal e o imprime definitivamente no consciente colectivo da Nação como um escritor e intérprete de canções incontornável.
Actualmente encontra-se a ultimar a produção do novo disco ‘Onde mora o mundo?’, com data prevista de edição para Outubro, esperando-se tomar contacto com as novas canções e o que sobre nós dirão, no Jardim de Esculturas do Museu do Chiado.

myspace www.myspace.com/fabulabebada
vídeo ao vivo na Livraria Trama www.youtube.com
vídeo para o Expresso sobre a apresentação de ‘Boato’ no S Luiz www.youtube.com
entrevista ao jornal i www.ionline.pt/conteudo/11327-jp-simoes

Local: Museu do Chiado - Jardim de Esculturas
Data: 12 de Agosto
Horário: 19h30
Entrada: GRATUITA

KIMI DJABATÉ SOLO
Um dos segredos mais bem guardados e estimados de Lisboa desde o início da década passada, todos os que se entregavam generosamente à alegria e à dança ao som da sua música ao vivo sabiam que não ia durar para sempre tal tesouro permanecer escondido do resto do globo. Descendente de uma família secular de músicos mandingas, Kimi viveu toda a sua vida imerso em som e cultura, fosse aprendendo balafon (instrumento em que é virtuoso), tocando guitarra ou cantando. Ao seu segundo álbum no ocidente, ‘Karam’ (editado pela multinacional Cumbancha, e o primeiro com real distribuição internacional), Kimi Djabaté foi mundialmente aplaudido, tendo o álbum inclusivamente sido considerado como o 2º melhor na categoria world pela BBC. Um verdadeiro príncipe africano, que faz o Bairro Alto e Lisboa brilharem mais forte, aqui numa actuação a solo para nos dar mais coração e suavidade neste fim de tarde na capital.

Myspace www.myspace.com/kimidjabate
Vídeo de Kimi na rua com balafon www.youtube.com
Entrevista no ipsilon ipsilon.publico.pt/musica/entrevista
Entrevista no Cotonete cotonete.clix.pt/noticias

Local: Museu do Chiado - Jardim de Esculturas
Data: 19 de Agosto
Horário: 19h30
Entrada: GRATUITA